Nosso posicionamento teológico
Proto-tradicionalismo, no sentido em que adotamos, não é mais uma “corrente” denominacional.
É uma postura hermenêutica e epistemológica diante da Escritura.
Não afirmamos uma leitura “sem tradição”.
Afirmamos, conscientemente, a prioridade das tradições mais antigas, fundacionais e autorais, em contraste com tradições teológicas posteriores, mediadas e sistematizadas.
Para tornar essa posição clara, organizamos nosso entendimento em quatro pontos.
1. Toda teologia parte de alguma tradição — a questão é: de qual?
As principais correntes teológicas conhecidas se definem e interpretam a Bíblia a partir de marcos históricos específicos, que funcionam como tradições interpretativas normativas.
• Tradição reformada
Retorna à Reforma Protestante do século XVI.
Lê a Escritura mediada por Agostinho, Calvino, Lutero, Bucer, pela escolástica tardia e por categorias herdadas do platonismo e do aristotelismo cristianizado.
• Tradição pentecostal
Retorna à Rua Azusa, no início do século XX.
A experiência carismática torna-se eixo hermenêutico central da leitura bíblica.
• Tradição católica
Retorna à tradição patrística e conciliar, profundamente moldada pela filosofia helenística.
Todas afirmam fidelidade à Bíblia.
Na prática, todas demonstram fidelidade a tradições históricas específicas de leitura da Bíblia.
A pergunta honesta, portanto, é inevitável:
por que assumir como normativas tradições tardias, e não retornar às tradições mais antigas — aquelas que moldaram os próprios autores bíblicos?
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2. O que é proto-tradicionalismo, em termos gerais
Proto-tradicionalismo é a convicção de que:
A Escritura só pode ser corretamente compreendida quando interpretada a partir das tradições fundacionais, do horizonte histórico-mental e do contexto linguístico e cultural dos próprios autores bíblicos.
Não se trata de rejeitar toda tradição.
Trata-se de distinguir tradições originárias de tradições posteriores.
Nosso compromisso não é restaurar:
• uma igreja idealizada,
• um modelo eclesiástico específico,
• ou uma experiência espiritual histórica.
Nosso compromisso é mais fundamental:
interpretar a Bíblia a partir das tradições que antecedem sua posterior sistematização teológica.
Ou seja, não negar tradição, mas priorizar as tradições mais próximas da origem do texto.
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3. Proto-tradicionalismo bíblico-judaico: retornar às tradições certas
Nossa proposta é simples e, ao mesmo tempo, exigente:
Se desejamos compreender a Bíblia, devemos retornar às tradições vivas nas quais ela foi escrita, e não apenas às tradições teológicas que surgiram séculos depois como tentativas de explicá-la.
Isso implica compromissos claros.
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a) Priorizar a matriz judaica da revelação
A Bíblia é um livro hebraico, mesmo quando escrita em grego.
Jesus era hebreu, formado dentro da tradição de Israel;
Os apóstolos eram hebreus;
Paulo foi formado no farisaísmo do seu tempo;
Os profetas pensavam em categorias hebraicas, não gregas.
Ignorar esse dado básico é cometer anacronismo teológico.
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b) Perguntar: quais tradições moldaram os autores bíblicos?
Para compreender corretamente o que os autores bíblicos escreveram, é necessário compreender quais tradições moldaram seu pensamento.
Para entender Paulo, é preciso perguntar o que Paulo lia.
Paulo não lia:
• Agostinho
• Calvino
• Tomás de Aquino
• Lutero
Paulo lia:
• a Torá
• os Profetas e os Escritos
• tradições hebraicas do Segundo Templo
• literatura rabínica
O mesmo vale para os autores dos Evangelhos.
Ignorar esse universo produz uma Bíblia artificial, deslocada do seu próprio mundo.
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c) Submeter tradições posteriores à crítica do contexto original
A teologia cristã posterior foi profundamente moldada por categorias filosóficas estranhas ao pensamento bíblico hebraico, como:
• platonismo (dualismo corpo/alma)
• aristotelismo (metafísica abstrata)
• filosofia da essência, da substância e da abstração
O resultado desse deslocamento é conhecido:
• fé reduzida a ideia, não a fidelidade
• dicotomias artificiais, como Calvinismo e Arminianismo
• ruptura indevida entre Antigo e Novo Testamento
Nada disso corresponde à cosmovisão bíblica originária.
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4. O que define essa posição teológica
Podemos definir nossa linha teológica da seguinte forma:
Proto-tradicionalismo bíblico-hebreu é a postura teológica que busca interpretar a Escritura a partir das tradições fundacionais, da cosmovisão, da linguagem e das categorias mentais dos próprios autores bíblicos, submetendo tradições teológicas posteriores à crítica do contexto original.
Isso implica:
- Priorizar o sentido original antes da sistematização
- Ler o Novo Testamento como continuidade do Antigo, e não como ruptura
- Interpretar Jesus como o Messias dentro da história de Israel
- Ler Paulo dentro do mundo hebraico do Segundo Templo, e não como fundador de uma religião helenizada
- Tratar a Bíblia como um documento de aliança, história e missão, e não apenas como um sistema abstrato de doutrinas
O que isso não implica:
Apesar de valorizarmos o contexto hebreu original da Escritura, não somos judaizantes.
Nossa abordagem é bíblica, não sectária.
O objetivo não é judaizar cristãos, mas compreender corretamente as Escrituras que Deus escolheu revelar dentro de um contexto hebreu, para que a fé cristã seja vivida com maior fidelidade, maturidade e coerência bíblica.
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Conclusão
Não se trata de inventar uma nova teologia.
Trata-se de algo mais profundo:
questionar a prática de tratar tradições teológicas posteriores como ponto de partida normativo da interpretação bíblica.
Isso é proto-tradicionalismo no sentido mais honesto do termo:
não negar tradição, mas retornar às tradições fundacionais que moldaram os autores inspirados.
Essa postura inevitavelmente tensiona sistemas teológicos que dependem mais da herança interpretativa posterior do que do texto bíblico em seu próprio mundo histórico.
E é exatamente esse o compromisso que assumimos.
Chamamos essa postura de Proto-tradicionalismo Bíblico-Hebreu:
uma abordagem que lê a Escritura a partir de suas tradições originárias, e não por meio de categorias que surgiram séculos depois.
Essa é a nossa linha teológica.
Esse é o nosso compromisso acadêmico.
Essa é a base a partir da qual ensinamos, pesquisamos e formamos líderes cristãos.